Vi crianças mastigando devagar para enganar o estômago vazio. Vi mães dividindo um único pão entre vários filhos enquanto diziam que já haviam comido, apenas para que sobrasse mais um pedaço para as crianças. Vi famílias vivendo numa privação tão extrema que o pensamento já não conseguia florescer com clareza, porque a desnutrição também destrói a mente.

A fome enfraquece o raciocínio. Apaga a esperança. Rouba os sonhos. Transforma a sobrevivência na única meta possível.

Há uma violência silenciosa na fome que muitos jamais compreenderão.

A fome arranca da pessoa até o direito de imaginar um futuro.

O Bolsa Família nunca foi luxo. Nunca foi conforto. Nunca foi excesso.

Para milhões de brasileiros, foi o arroz no prato. O leite da criança. O remédio do idoso. A última barreira entre uma família e o abismo absoluto da fome.

Entristece-me profundamente ver a pobreza ser analisada de longe por pessoas que jamais ouviram o silêncio desesperado do armário vazio.

Porque quem já esteve diante da miséria real sabe: ninguém escolhe a humilhação da necessidade.

Ninguém sonha em pedir ajuda para sobreviver.

O pobre não sonha em depender. O pobre sonha em viver com dignidade.

Sonha em trabalhar sem ser explorado. Sonha em dormir sem o medo da fome. Sonha em oferecer aos filhos aquilo que a vida lhe negou.

E talvez a maior crueldade deste mundo seja transformar o sofrimento dos vulneráveis em suspeita moral, enquanto se fecha os olhos para as estruturas perversas que produzem fome, adoecimento e morte todos os dias.

Porque é muito fácil atacar seu irmão de barriga cheia.

Difícil é olhar nos olhos de uma criança desnutrida sem sentir a própria humanidade estremecer.

E, se a fome do outro não é capaz de incomodar o seu coração, então a doença talvez não esteja no corpo faminto — mas na alma de quem aprendeu a olhar para o sofrimento sem sentir nada.

A fome não deveria ser debate ideológico. A fome deveria ser vergonha coletiva.

E nenhuma sociedade será verdadeiramente humana enquanto existir alguém chorando de fome numa noite vazia.

 

Zenilda Campos

Assistente Social