Antes que a tua boca blasfeme contra a vida, agradece o pão morno sobre a mesa, o arroz que fumega humilde no prato, a água limpa que beija tua garganta sem lágrimas.
Porque há casas onde a fome já apodreceu até o silêncio.
Há crianças de ventre murcho mastigando o vazio como quem mastiga a própria infância.
Há mães de olhos cavos, negras madonas do abandono, rasgando a própria carne invisível para fingirem aos filhos que já comeram.
Ah… a fome…
Essa cadela espectral que ronda barracos, que lambe ossos, que entra pelas frestas da noite e se deita ao lado dos pobres como uma sombra faminta.
A fome não dorme. Não espera eleições. Não espera discursos. Não espera piedade.
Ela rói
Rói o corpo. Rói a lucidez. Rói a esperança. Rói até a dignidade como ratos devorando um altar abandonado.
E enquanto alguns desperdiçam banquetes sob lustres dourados, há velhos adormecendo com a dor seca do estômago, há crianças bebendo água para enganar a morte por mais uma noite.
Ó sociedade de mármore e ferrugem, como consegues dormir sem ouvir o choro das panelas vazias?
Porque o pão que te sobra é milagre para milhões.
E se o teu coração não estremece diante da fome do outro, se teus olhos não ardem diante de uma criança desnutrida, então talvez a verdadeira miséria não esteja no barraco — mas dentro da alma que desaprendeu a sofrer com a dor humana.
Ter alimento não deveria ser privilégio.
Deveria ser direito sagrado, como a luz, como o ar, como o próprio amanhecer.
Zenilda Campos
